Apesar dos inúmeros reveses pelos quais o ensino humanístico passou em nosso país – sobretudo com a instauração da ditadura, a partir da década de 60, até a redemocratização, no final dos anos 80 - o estudo da cultura clássica jamais desapareceu, o que revela a força de uma tradição que deita suas raízes nos primeiros anos do nascimento do Brasil. A existência da tradição de Estudos Clássicos no Brasil é inegável do ponto de vista histórico, e a conjuntura atual, de uma época dominada pela prevalência da técnica sobre o conhecimento teórico, não nos deve cegar para essa realidade.
O ensino do Grego e do Latim foi trazido pelos padres jesuítas para nossas terras apenas 50 anos após o descobrimento, com a criação do currículo de Humanidades no Colégio dos Meninos de Jesus, em São Vicente. Ainda no século XVI, as cadeiras de latim e grego chegaram à Bahia, Espírito Santo, Pernambuco, São Paulo, Rio de Janeiro, Pará e à Colônia do Sacramento. Mais tarde, em 1759, com a expulsão dos Jesuítas, no âmbito das reformas pombalinas, o ensino do grego e do latim foi reestruturado com a emissão do Alvará nº 28 de 1759, que criava as Escolas Régias em todo o Reino de Portugal e Colônias. Já em 1774 foi criada a cátedra de Filosofia (ministrada em Latim) no Rio de Janeiro e a de Latim em São João del-Rei. Pouco depois, em 1776, mais outras oito cadeiras para o estudo de Retórica, grego e hebraico se seguiram. Com esse contexto cultural, o Brasil foi capaz de forjar seu primeiro grande escritor, o Padre Antônio Vieira, exímio latinista, educado no Colégio da Bahia.
No final do século XVIII, tomando de empréstimo um trecho da primeira Bucólica de Vergílio, os Inconfidentes mineiros organizaram um dos primeiros movimentos nativistas do Brasil, cujo lema, ainda hoje presente na bandeira do Estado de Minas Gerais, é: Libertas quae sera tamen (Buc. 1.27), que significa: “Liberdade ainda que tardia”. Logo, o espírito clássico já estava arraigado na nação brasileira. Após a Independência, o ensino das Humanidades, e entre elas o das duas línguas clássicas, sempre foi preponderante no nível secundário e no superior. Seria desnecessário mencionar aqui a importância e a estima que o Imperador D. Pedro II tinha por esse tipo de instrução. Em 1837 foi criado o colégio que leva seu nome, a partir da reorganização do Seminário de São Joaquim, em um momento em que senadores e o próprio Imperador discutiam uma possível educação pública em nível nacional e unificada. Estabeleceu-se, assim, no Rio de Janeiro, a escola-modelo do ensino secundário no Brasil. A Reforma Estatutária de 1841 aumentou de seis para sete anos o ciclo do ensino secundário, e o estudo do latim e do grego, este em menor escala, se fazia ao longo de todo esse período.
Apenas com o despontar da República, que nascia sob a égide do positivismo de Auguste Comte, é que a situação do ensino das Humanidades começou a se deteriorar no Brasil. Consequentemente, o ensino do grego foi o primeiro a ser extinto do currículo, em 1915, pela reforma Carlos Maximiliano (Decreto n. 11.530, de 18/3/1915). A situação desfavorável intensificou-se a partir da década de 1920, quando vários intelectuais e educadores, defensores da renovação educacional, posicionaram-se favoráveis à remodelação da escola secundária adequando-a às necessidades da sociedade moderna, o que implicava a defesa da ampliação dos estudos científicos nos programas, alterações no número de aulas dedicadas aos estudos clássicos, a divisão do curso secundário em dois ciclos e sua adaptação às características do alunado, que em sua grande maioria procurava uma colocação mais rápida no mercado de trabalho em processo de industrialização. As diversas propostas discutidas no Congresso de Instrução Superior e Secundária de 1922 foram a origem de muitas modificações que vieram a ser implementadas mais tarde, como a seriação preferível no ensino de humanidades, as vantagens da divisão do secundário em ciclo-ciências e ciclo-letras, a obrigatoriedade do latim no programa de ensino, o melhor método para o ensino das línguas clássicas, o caráter a ser assumido pelo estudo da história no ensino de humanidades, as vantagens do estudo da história do Brasil sob um ponto de vista regional e a vantagem de se restaurar o estudo do helenismo no curso secundário.
Entre as recomendações gerais aprovadas naquele Congresso, foi assinalada a reconstituição do curso de bacharelado em letras no Colégio Pedro II, a manutenção do ensino secundário de caráter clássico, de par com o desenvolvimento científico exigido pelas necessidades dos tempos modernos, a ênfase no regime de ampla liberdade para o ensino particular e a modificação dos programas especialmente nos institutos de ensino secundário, no sentido de simplificá-los, de modo que a teoria dada não se desvinculasse das atividades da vida e que os métodos de ensino, em todas as disciplinas, partissem sempre do concreto para se atingir o abstrato. Posições que desafiavam a tendência humanística que nascera com o país. De fato, o Prof. Francisco Azzi, na revista A Ordem, de 1929, denuncia uma tendência que via como “um pragmatismo errôneo e estrito, um utilitarismo de vista curta e um falso espírito democrático, debalde tentam, em ataques tantas vezes repetidos quantas mallogrados, proscrever do curso secundário o estudo das letras latinas, reputando-o inútil, porque ‘não rende’” (AZZI, 1929, p. 102). Quão profética e atual provar-se-ia sua posição.
Apesar disso, verificamos uma pequena vitória no ensino de nível superior, já que em 1925 a Faculdade de Filosofia de São Paulo passou a oferecer também o curso de Filologia Clássica (Latim e Grego), o primeiro de Letras do Brasil e que continua ativo, embora tenha sofrido diversas alterações. O curso era trienal, e os formandos de Filologia Clássica não recebiam o título de Bacharel, mas apenas um atestado de conclusão de curso, visto que não havia legislação para os estudos superiores em Letras. No nível secundário, a lei Rocha Vaz, do mesmo ano, confirmou os cinco anos do secundário, com quatro de Latim, da segunda a quinta série, mantendo o curso de um sexto ano para aspirantes ao grau de Bacharel em Ciências e Letras, cabendo à escola média a concessão do título de amparo legal.
No início dos anos 30, a reforma de Francisco Campos deflagrou inúmeros debates. Ela imprimia maior organicidade ao ensino secundário em âmbito nacional estabelecendo os estudos regulares, a seriação e a frequência obrigatória. Além disso, instituía a divisão do secundário em dois ciclos – um fundamental (cinco anos de duração) e outro complementar (dois anos de duração). Quanto ao currículo, adotou uma clara opção pelos estudos científicos fixando uma distribuição mais equilibrada entre matérias literárias e científicas. O estudo do latim foi relegado a apenas três aulas semanais nas 4ª e 5ª séries do ciclo fundamental, um número total de aulas pela primeira vez inferior àquele de aulas dedicadas ao inglês e ao francês (seis contra nove, respectivamente).
Um novo alento para os estudos humanísticos surgiu à época do Estado Novo com a “Reforma de Capanema”, nome dado à Lei Orgânica do Ensino Secundário (Decreto-lei nº. 4 244 de 9/04/1942) de autoria do então ministro da educação Gustavo Capanema, que procurava “formar nos adolescentes uma sólida cultura geral, marcada pelo cultivo a um tempo das humanidades antigas e das humanidades modernas, e bem assim, de neles acentuar e elevar a consciência patriótica e a consciência humanística”. Por essa reforma, o secundário continuou dividido em dois ciclos: o ginasial, com quatro anos de duração, e o colegial, com três anos de duração, compreendendo dois cursos paralelos – o clássico e o científico. Para Capanema, a formação humanista justificava-se pelo fato de ela haver-se com o “difícil problema da significação do homem, êste problema crítico, de que depende o rumo de uma cultura e de uma civilização, o rumo das organizações políticas, o rumo da ordem em todos os terrenos da vida social.” (apud Brasil, 1952, p. 23).
A reforma deu ênfase ao estudo do latim ensinado em todas as séries do curso ginasial enquanto as ciências foram relegadas apenas a duas aulas semanais nas duas últimas séries desse ciclo. Nesses termos, a reforma Capanema pode ser considerada uma vitória dos defensores do currículo humanista, o último reduto da língua latina na educação secundária e da valorização da cultura geral como eixo central da formação da juventude. Vigente por quase duas décadas (entre 1942 e 1961), no período marcante de expansão contínua do ensino secundário no país, as gerações de estudantes que frequentaram os ginásios e colégios brasileiros nas décadas de 1940 até meados dos anos 60, muitos deles provenientes da classe média e um número crescente de jovens pertencentes às camadas populares, tiveram contato não apenas com disciplinas e programas impregnados da cultura literária mas também com uma concepção de educação norteada pelos valores do humanismo prevalecentes na sociedade brasileira.
Em 1961, no entanto, com a promulgação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação de 1961 (Lei 4.024/61), os Estudos Clássicos sofreriam um duro golpe, e a formação humanística no Brasil ficaria permanentemente ameaçada. Em 1962, o Conselho Federal de Educação indicou as matérias obrigatórias do ensino médio: Português (sete séries), História (seis séries), Geografia (cinco séries), matemática (seis séries) e Ciências (sob a forma de Iniciação à Ciência, duas séries, e sob a forma de Ciências Físicas e Biológicas, quatro séries). Tanto o latim quanto o grego foram relegados à condição de disciplinas optativas, o que selou seus destinos no ensino de nível secundário; ao contrário da Lei Capanema, a democratização do ensino secundário no Brasil iria optar não pela via do humanismo e da cultura, mas pela da especialização, a educação para o trabalho e o caráter instrumental e utilitário da seleção cultural para a escola média. Finalmente, a nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação de 1996 (Lei 9.394 de 20/12/1996), a exemplo do que já acontecera nos cursos secundários a partir de 1961, tornou o ensino do latim facultativo também para os cursos de formação superior, o que representou um duro golpe para a qualidade da formação dos bacharéis e licenciados em Letras em todo o país, sobretudo de instituições privadas.
Dada essa evolução histórica, podemos dizer que o destino dos estudos humanísticos e clássicos no Brasil está fadado a desaparecer? Terá ele se reduzido a pequenos departamentos em pouquíssimas instituições de ensino superior? Haverá ainda espaço para a pesquisa e a produção intelectual nesse ramo de atividade no país? Mais importante ainda, haverá mercado de trabalho para novos formandos em Letras Clássicas? A resposta a todas essas perguntas pode ser deduzida a partir do que segue.
Há atualmente pelo menos noves cursos de graduação em grego e latim em todo o país (UFBA, UFPB, UFC, UFPR, UFMG, USP, UNESP-Araraquara e UFRJ). Ainda, em muitas outras IES, os diversos departamentos de língua e literatura grega e latina têm uma forte atuação junto a outros departamentos de disciplinas afins, como a História e a Filosofia, que são, nessas instituições, normalmente o degrau de acesso a estudos mais especializados na área de clássicas, como ocorre na UNICAMP, onde o Centro de Estudos Clássicos tem desenvolvido estudos, traduções e pesquisa de relevo internacional na área. Em um país em que o ensino do grego e do latim foi extinto do ensino secundário há mais de sessenta anos, esse é um dado que mostra que não só há público e espaço para a produção intelectual nesta área, como também que esse público e esse espaço não diminuíram mesmo nas situações mais adversas, ao contrário, prosperaram. Isso demonstra uma clara vocação nacional para os estudos clássicos.
Na esfera da pós-graduação, as estatísticas são ainda mais encorajadoras. Segundo um levantamento feito em 1990 pela Prof. Dr. Paula da Cunha Corrêa (FFLCH/USP) para a American Philological Association intitulado Os Estudos Clássicos no Brasil, existiam cerca de dezoito programas de mestrado/ doutorado que abrigavam dissertações e teses na área de estudos clássicos. Nessa mesma década, foram feitas mais de 200 teses e/ou dissertações, destacando-se aí o Programa de Pós-graduação em Letras Clássicas da Universidade de São Paulo, com cerca de 60 trabalhos, e a Universidade Federal do Rio de Janeiro, com 53. Em 1999, o conjunto dos programas de pós-graduação acima considerados tinha mais de 150 alunos. Uma breve pesquisa no banco de dados da Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USP, além do mais, revela que, de 2003 a 2011, 53 teses e dissertações foram concluídas. Certamente essa produção pode e deve ser extrapolada para outros programas, como o da UFRJ, UNICAMP e UFMG.